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Ciência moderna: crise do paradigma e perspectivas para os estudos em Administração

             O objetivo deste paper é iniciar um debate sobre a crise da estrutura do paradigma vigente nas ciências e perspectivas para os estudos em Administração. Inicia-se explanando sobre o paradigma da ciência moderna, delimitando seus postulados. Segue-se introduzindo a ideia de Latour (1994) sobre a inexistência da modernidade, quando este aborda que a ciência jamais foi moderna, pois sua assimetria impediu seu desenvolvimento, e sua constituição permanece contraditória (humanismo, não humanidade e Deus fora do jogo) por ser de criação conjunta, mas receber tratamento separado. Demo (1985) é citado para reafirmar a ideia de Latour (1994). Inclui-se a análise da consequência da ciência moderna nos estudos organizacionais e debate-se perspectivas de superação da dicotomia entre objetividade e subjetividade à luz da proposta de aplicação da epistemologia simétrica nos estudos organizacionais. O fechamento ocorre na sequencia, finalizando com questões para debate.


Desenvolvimento

As bases constituintes da ciência moderna remontam ao século XVI com estudos como os de Galileu, Bacom e Descartes, que aplicaram o rigor metodológico e a racionalidade matemática na busca do conhecimento científico. A racionalidade permeou e qualificou os estudos científicos, especialmente nas ciências naturais e exatas, que passaram a ter no método uma forma única de construção e desenvolvimento do conhecimento. A ciência vigente passou a desenvolver-se com mais objetividade, na busca de tornar-se inteligível e potencializar seu poder de explicação, ou seja, “quanto mais bizarro e simples a ciência revela ser o mundo, melhor ela explica o mundo” (KNELLER, 1980, p.33)
A ciência moderna buscou promover uma ruptura com o passado, com a proposta de transformar o mundo e a ambição de ser imune as transformações deste (SANTOS,2004). Encontrou nas ideias matemáticas um instrumento de análise, de lógica de investigação e um modelo de representação, aplicando tratamento formal dos dados observados, proporcionando realizar previsões válidas, mas distanciando-se da realidade subjacente (SANTOS, 1998; KOYRÉ, 2011).
Desenvolveu-se assim, como um modelo totalitário, possibilitando uma só forma de conhecimento como verdadeiro, assentado na redução da complexidade, na prioridade da metafísica, na formulação de leis eleitas á luz de regularidades causais (propondo a estabilidade do mundo), que fluem para um determinismo mecanicista (SANTOS,2004). No entanto, o paradigma científico moderno enfrenta, especialmente nas últimas três décadas, uma profunda crise, derivada tanto de condições sociais quanto teóricas, engendrado por uma mudança no pensamento social e político, intitulado de pós-modernismo. O pós-modernismo é caracterizado por descontinuidade, indeterminação e transcendência, tendo no marxismo seu amparo para a crítica (CLEGG; HARDY, 1998).     
Latour (1994) defende a não existência do pós modernismo, quando argumenta que nem ao menos fomos modernos, e salienta que “ o navio está sem rumo: à esquerda o conhecimento das coisas, à direita o interesse, o poder e a política dos homens” (LATOUR, 1994, p.8). Latour (1994) reflete sobre o que é um moderno, ressaltando a característica temporal do conhecimento científico para este, onde o passado reflete o antigo e arcaico e o moderno um novo regime de progresso, o que torna a ciência moderna assimétrica, pois marca a ruptura na passagem regular do tempo e assinala um combate com vencidos (passado arcaico) e vencedores (novo, moderno).
A assimetria da ciência vigente a coloca em posição hegemônica, e desarticula a própria ciência, pois desconsidera a ciência como o produto lógico e sociológico da atividade científica dos cientistas, ou seja, não possível de fundamentação última. Demo (1985) ao observar que a realidade é maior que a capacidade de capta-la, aponta para a complexidade do contexto científico, que a ciência moderna trata de separar. Para Latour (1994) essa separação ocorre entre três elementos: humanidade, não humanidade das coisas e Deus fora de jogo.
Considerando que a ciência tenha se constituído intrinsecamente histórica, e que o sentimento religioso é o motivo mais antigo para o estudo científico (KNELLER,1980), manter os saberes especulativos (filosofia e místicos) fora da circulo científico é dicotômico. Neste sentido, não é de surpreender o vácuo existencial vivenciado pela ciência moderna, pois ao manter de fora sua base (saberes especulativos), e ao colocar-se em posição de soberania (assimetria), compromete seu desenvolvimento e evolução, já que, como ressalta Demo (1985) a atividade científica mais importante é a crítica de sua produção.
Nas ciências sociais, especialmente nos estudos em Administração, a busca da ciência moderna pela objetividade, e consequente simplificação do seu poder de explicação esbarra no objeto principal de estudo: a organização. Desde sua origem, definir estudos organizacionais não tem sido tarefa fácil, pois, embora as organizações sejam objetos empíricos, ou seja, vemos algo quando vemos uma organização, cada indivíduo pode estar vendo algo diferente (CLEGG e HARDY,1998). Nesse contexto, a escolha do sentido empírico está atrelada ao sujeito que observa a organização e que decide como a representará.
A possibilidade de interpretar a organização atribuída aos indivíduos ressalta a importância da realidade subjacente que a ciência moderna busca suprimir: a subjetividade. Mediante a concepção da ciência moderna, os estudos organizacionais ocultam as dimensões humanas, reduzindo os seus esforços a técnicas de controle e formalização, e assim verificamos um reflexo social da modernidade explicada por Latour (1994) pela predição da sociedade por objetos fabricados em laboratório, substituindo-se as ideias pelas práticas, o raciocínio livre pelo juízo controlado (leis).
A “crise” no modelo de ciência vigente surge no contexto organizacional quando da crítica a concepção instrumental, adaptativa e manipuladora do ser humano (CHANLAT,1996). Para superar a tensão entre objetividade e subjetividade nos estudos organizacionais caberia a proposta de Latour (1994) de aplicar a antropologia simétrica, ou seja, desenvolver o princípio da simetria generalizada, na qual o cientista deve estar no ponto médio de onde possa acompanhar a atribuição de propriedades humanas e não humanas. Ressalta-se a simetria não como sinônimo de diluição ou anulação das diferenças conceituais, ou seja, não implica em tornar o que é diferente igual, mas sim, não projetar diferenças epistemológicas antes de ir a campo.
Esta concepção aplicada aos estudos organizacionais não visualizaria objetividade e subjetividade em lados opostos ou como princípios contraditórios, e o pesquisador as receberia mediante uma postura simétrica, e não de maneira imposta pela ciência instituída. 
Mas para que fosse possível desenvolver tal antropologia, talvez caberia revisitar o objetivo básico da ciência, pois, já que seu ideal máximo é a objetividade (DEMO, 1985), como seria possível alcançar objetividade na subjetividade, sendo esta complexa e intrínseca ao indivíduo? E ainda, tendo em vista que a ciência é uma utopia, já que seu ideal máximo é inatingível (DEMO, 1985), como tornar “válido” a um maior número de pessoas um conhecimento subjetivo, utópico e permeado por ideologias? O conhecimento organizacional sem a objetividade da ciência moderna não se tornaria efêmero ou atrelado a um sujeito/espaço/tempo tão específicos que não serviria a mais nada que a mera informação?


Quem sabe este último já ocorra, mas nós quanto pesquisadores/cientistas nos agarramos a crença da assimetria da ciência moderna, e assim, cremos que nossas pesquisas de base positivistas possibilitam alguma explicação válida para este mundo complexo.  




Referências


CHANLAT, J.F. Por uma antropologia da condição humana nas organizações. In: CHALAT, J. F. (Coord.) O indivíduo na organização: dimensões esquecidas. 3 ed. São Paulo: Atlas, 1996 (v.1) p.21-45.
CLEGG, S. HARDY, C. Organização e Estudos Organizacionais. Handbook de Estudos Organizacionais. Modelos de Análise e novas Questões em estudos organizacionais. São Paulo: Atlas, 1998.
DEMO, P. Demarcação Científica. In. DEMO, P. Metodologia Científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1985.
KNELLER, A Ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahr, 1980, p.15-29.
KOYRÉ, A. As origens da ciência moderna: uma nova interpretação. In: KOYRÉ, A. Estudos de história do pensamento científico. 3 ed. Rio de Jnaeiro: Forense Universitária, 2011.
LATOUR, B. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro. Editora 34, 1994.
SOUZA SANTOS, B. Um discurso sobre as ciências. Coimbra: Edições Afrontamento, 1988.
SOUZA SANTOS, B. Introdução In: SOUZA SANTOS, B. Conhecimento Prudente para uma vida decente. São Paulo: Cortez, 2004. 

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