Pular para o conteúdo principal

Positivismo de Comte e a influência nos estudos das Ciências Sociais



Bacom, Descartes, Kant realizaram o esforço, mas ainda não haviam resolvido o “problema” da subjetividade quando Comte instituiu a sua Filosofia Positiva. A sensação até então, é a de que um pêndulo pairava sobre as ciências e em seus polos encontravam-se a objetividade e a subjetividade. O que Comte não percebeu é que ao instituir a concepção da própria palavra que dá sentido à sua filosofia (positivo), ele agitava ainda mais este pêndulo, ao dividir a comunidade científica em ciências do real, da utilidade, da certeza e da precisão, e em ciências do quimérico, do ocioso, da indecisão e do vago.
O presente trabalho pretende realizar uma análise singela dos conceitos de positivo proposto por Comte (1976) a luz do trabalho de Demo (2011), debatendo as consequências principais da proposta positivista para os estudos em ciências sociais.


Quando Kant escreveu Crítica da razão pura na segunda metade do século XVIII, descreveu a ciência como um campo de batalha ao diagnosticar a crise da metafísica. Procurou conciliar o racionalismo com o empirismo ao defender que o conhecimento é formado a partir da experiência, mas com uma estrutura racional que permite que esse conhecimento seja avaliado e conectado a outras formas de pensamento. Neste sentido, tanto a razão quanto a experiência partem do sujeito, e não há como saber o que um objeto é realmente, pois este é captado pelos sentidos, e assim não chega-se ao objeto, somente ao fenômeno deste objeto (KANT,2015).
O positivismo foi o resultado do desenvolvimento crítico do Kantismo, e prega a não investigação das causas apriorísticas e da essência metafísica dos fenômenos, mas sim a procura de leis cada vez mais gerais mediante relações constantes de sucessão ou de semelhança entre os fenômenos. Neste momento a preocupação centra-se na expressão lógica do discurso científico em detrimento das realidades observáveis (COMTE, 1976).
Comte observou que as especulações humanas passavam por três estados teóricos: Teológico, Metafísico e Positivo, sendo que no último se encontra o que chamou de regime definitivo da razão humana, cuja base de estudo é a apreciação sistemática para perceber as verdadeiras relações de cada parte com o todo.
Tanto a teologia quanto a metafísica buscam explicar a natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, mas enquanto a primeira emprega agentes sobrenaturais, a segunda os substitui por entidades ou abstrações personificadas. Para Conte a Metafísica é “apenas uma espécie de teologia enervada pouco a pouco por simplificações dissolventes, que lhe tiram espontaneamente o poder direto de impedir o desenvolvimento das concepções positivas” (COMTE, 1976, p.14).
A sensação é a de que um pêndulo pairava nos estudos científicos: de um lado estudos da teologia e da metafísica, considerando aspectos subjetivos na interação homem e ciência, e com a busca de explicação para o todo, e, de outro, estudos racionalistas e empiristas, com a tentativa de abstrair explicações mais objetivas para a interação homem e ciência. O estado teórico positivo de Comte ambicionava equilibrar o pêndulo, ao não realizar apologia a objetividade e ao considerar a subjetividade, mesmo que regulada em termos morais e intelectuais pela objetividade.
Para Comte não era possível “reduzir tudo a uma única lei positiva como grave imperfeição e consequência inevitável da condição humana” (COMTE, 1976, p.29), e assim instituiu verificar os fenômenos de forma separada do todo, ou seja, apenas um número possível de relações com a qual se pudesse trabalhar de forma lógica. Desta forma salienta a superioridade da filosofia positiva sobre a teologia e a metafísica, ressaltando que é importante recorrer a distinção realizada por Kant entre os pontos de vista objetivo e subjetivo. O objetivo relaciona-se ao destino exterior das teorias, a exata representação do mundo real, do qual não se pretende unidade científica, mas sim a homogeneidade e convergência de diversas doutrinas.
Este pressuposto desenvolveu no conhecimento científico a divisão dos conhecimentos em áreas, e das áreas em disciplinas. A visão do todo tornou-se consequência do conhecimento das partes, sob a premissa de que as partes não podem ser maiores que o todo observado.
O aspecto subjetivo relaciona-se a origem interior das teorias humanas e não refere-se ao universo, mas sim ao homem. Neste sentido, Comte separa a ciência humana o que chama de ciência social dos estudos das ciências naturais. A partir deste, as premissas aplicadas ás ciências naturais passam a “valer” nos estudos em ciências sociais, e estas buscam cada vez mais apropriar-se das lógicas das ciências naturais. Um exemplo é os estudos do comportamento sob a ótica behaviorista, que observa o comportamento humano em um ambiente controlado, a fim de tirar conclusões aplicáveis a outros momentos e locais para incentivo da produção dos trabalhadores. A tentativa de tornar a ciência “mais lógica” reflete regular a dúvida nas ciências sociais mediante a aplicação do que gera certeza nas ciências naturais.
Comte utiliza cinco concepções atribuídas a palavra positivo. A primeira delas designa o positivo como o real versus o quimérico, ressaltando que a investigação do que é possível conhecer, ou seja, o estudo das relações em detrimento do conhecimento das causas. O segundo sentido indica o contraste entre útil e ocioso, representando a busca pelo melhoramento contínuo da condição individual e coletiva, contrapondo “a vã satisfação de uma curiosidade estéril” (COMTE, 1976, p. 48).
A terceira forma qualifica a posição entre certeza e indecisão, sendo que a certeza implicaria em construir uma harmonia lógica em lugar de debates intermináveis propostos na teologia e na metafísica. A quarta concepção opõem o preciso ao vago, ou seja, o preciso espírito positivo tenderia a obter precisão compatível com a natureza dos fenômenos, e não meras opiniões vagas. O ponto nevrálgico da concepção de positivo é que este se opõe ao negativo com a finalidade de organizar, e não destruir, consagrando a ordem e o progresso.
As concepções atribuídas ao positivo refletiram em ênfase na distância entre o polo objetvidade e subjetividade, e a partir de então o pêndulo oscilaria dentro da própria proposta positivista. Na busca do real, desenvolveram-se procedimentos de formalização rigorosamente controlados, com uso da matemática e da estatística, gerador do debate contemporâneo sobre a validade metodológica nos estudos das ciências sociais, de onde emergem “epistemologias alternativas” para atender o que o positivismo propôs, mas não conseguiu.
Ao valorizar o útil, o positivismo considera como dispensáveis conhecimentos que não contribuam para a generalização e aplicação no coletivo, tornando dispensáveis assim, informações provenientes da vida de indivíduos “irrelevantes” como indíos, mulheres, negros (...), relegando a estes o título de “curiosidades”. As ciências sociais demonstram, no entanto, não seguir as “regras” das ciências naturais, pois as “formalizações matemáticas implicam validade universal no plano da forma, não, porém, da existência” (DEMO, 2011, p.4).
Quando valoriza a certeza ao deixar “para trás” as crendices religiosas instituídas pela teologia e pela metafísica, por obra do método lógico-experimental, a ciência positivista retomou a “tentação religiosa” de se oferecer como único conhecimento válido, desprezando os formatos multiculturais (DEMO, 2011).
A quarta concepção opõem o preciso ao vago, ou seja, o positivismo despreza que a realidade pode não ser linear, e sim mais complexa, extensa e intensa (DEMO, 2011), como aparenta ser inclusive nas ciências naturais, agora como exemplo dos problemas ambientais.
Substituir a determinação das causas pela pesquisa das leis, sugere a existência de regularidades estáveis propondo encontrar a “essência” da realidade, mas o máximo que se consegue é estudar como as dinâmicas se repetem e não a dinâmica propriamente dita (DEMO, 2011).
O positivismo propôs organizar o conhecimento humano de forma “positiva” (ou não negativa), e assim contribuir para o progresso da humanidade. Tem na previsão racional seu principal caráter, e consiste em ver para prever, em estudar o que é para prever o que será, segundo o dogma da invariabilidade das leis naturais.  Instaurou crítica nas ciências sociais, pois não cumpriu o que propôs, ressaltando-se que nem ao menos os cientistas naturais de intitulam positivistas, pois se imaginam captar a realidade como ela é (DEMO, 2011), já que a realidade das ciências naturais não é subjetiva (será que não¿). 
Quando Comte instituiu a concepção da palavra que dá sentido à sua filosofia (positivo), ele agitou ainda mais o pêndulo entre os pólos objetivos e subjetivos, ao dividir a comunidade científica em ciências do real, da utilidade, da certeza e da precisão, e em ciências do quimérico, do ocioso, da indecisão e do vago.
Algumas questões contemporâneas eclodem e perturbam principalmente os cientistas sociais. Tornando a questão de pesquisar as partes em detrimento do todo, observa-se, por exemplo, problemas relativos a sustentabilidade ambiental: como “mensurar” os danos materiais, econômicos, para a saúde e bem estar no pequeno, médio e longo prazo? Não será necessário uma análise interdisciplinar?
Será que os “irrelevantes” não são “úteis” para entender as questões sociais indispensáveis¿ Não seriam estes importantes na “pesquisa da essência”?
Demo ressalta que a crítica ao empirismo não deve ser confundido com o trabalho empírico da pesquisa, pois esta proporciona, mediante dados empíricos, a reconstrução teórica “num vai e vem recíproco sob a inspiração da mente analítica e questionadora” (DEMO, 2011, p. 3).




Referências:

COMTE, A. Discurso sobre o espírito positivo. Porto Alegre: Editora Globo; São Paulo: Editora da USP, 1976. p.1-57.

DEMO, P. Forças e Fraquezas do Positivismo. 2011.


KANT, I. Crítica da razão pura. 4.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. p.17-68.

Comentários